1. Bailarina. Eu tinha seis anos quando quis entrar na escola de dança do Guaíra. Mas as coisas mudaram de lugar, eu me mudei com minha família, enfim, 25 e elasticidade quase nula.
2. Cantora. Mas nada de Raul Gil falseteado. Queria ser uma Amy Winehouse com a elegância da Duff e com a presença de palco da Sharon Jones, só para ficar com as pessoinhas vivas.
3. Estilista. Bem, isso até merece um post a parte.
4. Assassina. Mas eu tenho problemas com sangue.
Desisti de conhecer o Timor-Leste, a China, Angola e as Ilhas Maurício. Estudo para ir a Paris. Por enquanto pelo menos.
Esta é a foto de um cara muito parecido com meu mais novo narrador:
E este é um trecho dele:
Para alguém tão correta, tudo isso era um grande tormento. Ela realmente sentia Henrik, por vezes Lars, descobrir seu corpo, não se excluindo pedaços muitíssimos pouco explorados, nem mesmo por ela, muito menos por Freitas. Sabemos bem, nenhum sexo que não “o convencional” é permitido nas Escrituras (leia-se a velha fórmula o homem é a cabeça e a mulher a cauda, ou ainda, father-mother fuck style). E o casal de Deus sabia disso e cumpria. Se Camile não era como Madame Bovary dada a ler folhetins safados ou histórias de amor impossíveis, de onde saía tanta criatividade? Henrik devia ser o demônio.
Faz um tempo que não escrevo nem bilhete, por isso esse silêncio. E andei meio deprimida. Ainda nessa relação amor-ódio com meu reflexo, mas já passou. Passou principalmente porque não tenho o glamour contemporâneo das janelas fechadas nem da letargia.E se eu não fosse tão vaidosa, talvez fosse mais fácil. O exercício, disse alguém sob uma árvore há milênios, é o desapego. Simples e difícil, como aprender a andar.
Prefiro chamar isso de inércia. Começar a girar sobre um piso áspero, depois de tanto tempo em repouso, demanda muita força. E prefiro pensar que esse tempo de silêncio equivale ao tempo que minha geladeira antiga leva pra esquentar antes de esfriar… A física tem seus mistérios.
Eu preciso girar sobre uma pista áspera partindo desse repouso.
Minha leitura da graphic novel Retalhos, de Craig Thompson, está sendo terapêutica. Linda a história, comovente, com um fluxo narrativo ótimo, arte muito boa, enfim, recomendo. Mas, além das qualidades estéticas, essa leitura veio em boa hora. Acredito em catarse. Mas do que isso, sei a catarse. Minha empatia natural me permite sempre me por no papel desse outro que me conta as coisas. Mas em Retalhos é diferente, o esforço é quase pra não me ver ali. Minha história é muito parecido com a do Craig, mesmo com todas as diferenças…
E veio em boa hora. Minha convivência comigo mesma não tem sido muito fácil. Às vezes acho que fiz as piores escolhas, em outros momentos amo tudo que faço. Mas o que mais tem me incomodado mesmo é que na verdade, com tanta coisa pra fazer, fica um pouquinho de abandono em cada uma e, como tudo é uma só vida, que não se divide em pequenas caixas, o vazio cresce. E me vejo alternando claustrofobia e agorafobia.
Mas. Ok. Amanhã vou fazer uma super-hiper-mega massagem ayurvédica. Os demônios escaparão pelos poros. Hare Baba! Hare Krishna!
Hoje acordei com uma vontade de conclusão. O telefone toca, eu recebo uma proposta interessante de trabalho que recuso porque decidi que vou me dedicar à literatura, morar numa choupana nas montanhas, fazer tortas de morango ouvindo David Bowie com meus gatos. A trilha sobe, eu olho com ar de vitória para meus amigos que me ouvem negar a vida adulta.
Compro uma casa para minha mãe, monto um ateliê para meu pai, que seria descoberto por um merchand famosíssimo e aos 80 anos seu brado de vitória seria uma exposição em alguma galeria descolada da Espanha.
Passa um tempo, engravido e me caso. Faço uma festa numa chácara, tomo um ácido, ou outra droga anacrônica desse tipo.
Mas em primeiro lugar o canto é um refúgio que nos assegura um primeiro valor do ser: a imobilidade. Ele é o local seguro, o local próximo de minha imobilidade. O canto é uma espécie de meia-caixa, metade parede, metade porta. Será uma ilustração para a dialética do interior e do exterior [...] Um poeta escreve este pequeno verso: “sou o espaço onde estou“…
Sonhei com pessoas que ficavam mais novas à medida que o tempo passava. Muito mais novas e muito rapidamente.
Uma dessas crianças tinha um formigueiro na geladeira imunda.
A história do tempo negativo começou quando, no sonho, fui assistir a uma apresentação de patinadores que ensaiaram um espetáculo em homenagem a Michael Jackson.
Um cara que assistia tinha os pés iguais ao do meu pai.
Eu entrei num bar, chorei, tomei um gin, acho, e fui para uma sala nos fundo onde encontrei meus amigos bebês.