versão 16 - Nina Becker style
Porque tem dias que acordar é uma desgraça. Mas esses dias acabam, e depois tem o outro com mais sol, sem chuva, o tempo seco, as violetas murchas, mas e daí, tem o sol, o dia claro e é inverno, perfeito.
E nesses dias eu quero ser outra pessoa.
Nina Becker por exemplo. Era diretora de arte em uma agência do Rio, mas cansou dessa coisa de ganhar dinheiro, saiu da empresa, voltou para casa da mãe, onde tinha uma máquina de costura. Por que não começar a costurar, não é? Resultado: a coleção mais feminina e elogiada do Fashion Rio daquele ano não-datado. Deu certo, mas dai o trabalho era muito e ela queria a boemia zona sul, banquinho, violão, o morro bonito com suas luzinhas lá longe, beeeeeeeeeem longe. Há 4 anos canta no Orquestra Imperial.
Hoje quero ser Nina Becker. Designer, estilista, bem-relacionada, sambista.

(foto sorrateiramente surrupiada de caroline bittencourt)
Em tempo: a inveja me deu um samba. Taí uns versinhos dele:
Fiz esse samba pra você me diluir
Me dar a lua trepidada em alto mar
E me perfuma, me abraça e me acata
Me destaca da calçada
Me lava com ondas do mar
welcome back
Mark W. Smith, How to disappear completely, acrylic, 20×24
chega de saudade - especial bossa cincoentona
Faxina na caixinha de grampos e nas pastas de luz da Matilda. Achei um coisa que nem sabia. Dividir-lo-ei, pois.
………………………….
Descendente de Vênus, uma lua latejante inspirava a seresta de Bianca. Felipe ali, sem sair de perto da porta. Ela anda estranha, ela não fala mais comigo, ela guarda a chave da gavetinha do banheiro dentro do cofre, a Teresa. Ela anda estranha, sente sono.
Ela anda cansada, exausta, tire as minhocas dessa cabeça, ô, Felipe. Ela anda estranha, e cantarola a seresta de Bianca. É pra Bianca, não é?
Mártir. Bianca é filha de Ares, ela e seu maiô de petipoá e renda, anda pela praia como se levitasse sobre seus chinelos brancos, furacão engavetando muitos mil metros de guerra. O diabo essa menina. Encantou João, aquele trovador bêbado de rimas escocesas e ritmo de cana. Serestas todas as sextas, antes do sarau da casa do Gomes. Seresta pra Bianca que brinca embaixo de seu penhoar de seda puríssima, puríssima Bianca, virgem e tão resplandecente, mas filha de Marte, aquela cachorra, não aceita os versos sinceros de minha boca rota, se faz de santa aquele veneno de corpo, aquela cor de brasa na pele, posso sentir aquela febre adolescente embaixo do lençol, ai, Bianca, Bianca, ouça a canção que fiz pra tu, cantando baixinho, sussurro essa nova bossa da juventude de nosso tempo, Bianca.
É uma casa de família. Teresa, indignada. Conto? Depois. Pela fresta da porta vê Bianca e Felipe se beijando com fome. Conto. Dia de seresta, Teresa pega a chave no cofre. O poeta olhando a gavetinha do banheiro.
Dois tiros atravessando o samba na varanda.
Não quero mais esse negócio de você longe de mim – lápide dos cunhados.
Versão 15 - black parisienne

Achei que ia comentar o meu lado groove black que sacolejava vinte cinco vinte sete avos de minha pessoa naquele lugar onde eu calçaca (vestia?) meu par de meia-calças laranja ao som do funk (eu sou do funk) embaixo do quinteto de metais foooooda e um negão estiloso mezzo Toni Garrido mezzo Carlinhos Brown soltando um free style e eu e meu amor e meu amigo mano que freqüentava o syndicate skate bar aguentando as patricinhas que tomavam seu smirnoff ice com guardanapo de papel e brincos detestáveis e decotes indecorosos e seus namorados barra pegas fortinhos que estavam ali porque apenas estavam ali, mas mesmo assim ainda estavam mais ali do que a namoradinha do amigo do namoradinho meu que estava entediadamente sendo entendiante com seu cigarro cenográfico e suas meias fio 80 e sua cara blasè mas acho que vou falar que sou mesmo de Paris, como a Alice, do Em Paris, e fotografo sem ser fotógrafa e escrevo sem ser jornalista tomo chá de laranja e canela no bule do café perfumado ali de perto sem ser a Alice do lado de lá.
domingo passado
uma pausa para o chá e as notícias
Era uma vez um jovem rapaz que resolveu botar sua vida em um leilão virtual porque estava completamente infeliz com o rumo que ela estava levando. Venda consumada, o jovem rapaz agora sem nome resolveu fazer uma lista de 100 projetos para cumprir em 100 semanas, entre elas conhecer o carnaval do Rio de Janeiro e as Cataratas do Iguaçu.
No curso que fiz sobre roteiro, além de tentar criar o hábito surrealista-freudiano de anotar os sonhos em um diário, aprendi a importância de ler as pequenas notícias dos jornais. Há poesia até no suplemento de informática da Folha de São Paulo.
Versão 14 - bicho da cidade
Minha tia sempre morou na fazenda. Os filhos dela também. Meu vô foi um tropeiro em seu tempo de mocidade: atravessava o estado com seu mangueirão de porcos sob a voz de seu comando. Minha mãe lavava penicos e bacias esmaltadas com água e limão. Meu pai nasceu em casa e, dizem, sem parteira nem nada. Meu bisavô morreu espancado por um índio. E minha vó foi vó aos 30 e poucos. Meus tios fumaram cigarros de palha desde crianças. E meu pai caçava pequenos roedores perto da casa dele.
Eu escrevo nesse momento um romance infantil sobre vacas. E nunca passei a mão em uma delas. A grande questão é: a gente consegue pensar vivo aquilo que nunca tocamos?
Versão 13 - onírica
Eu era a única menina da rua daquela casa detestável que era da casa do meu vô no interior. Portanto a única saída para a saída da sala de visitas chatas com uma cuia a tiracolo era a entrada da sala de livros. A sala de livros na verdade era a prateleira da cabeceira do meu quarto. Foi assim que tudo começou até chegar no dia em que eu, sem sono, li 223 páginas de um bom romance japonês contemporâneo e sonhei que era a melhor amiga da Amy Winehouse que me disse: que merda de mundo é esse? Todos lêem os mesmos livros e todos usam as mesmas palavras, e se masturbam escutando John Coltrane e assistindo a filmes do Pasolini. * E eu, como ela, estava morrendo de alguma coisa bizarra que me fazia desintegrar - lembro-me da minha preocupação em não poder usar chinelo porque tinha perdido alguns dedos dos pés.
* Haruki Murakami. Essa frase na verdade é dele. Dormi lendo seu livro.
Aventuras de jo-jo - capítulo 2
Jo-jo não conseguiu dormir aquela noite pensando na revelação de Marie. Antes de amanhecer, sentiu que era hora de partir ao encontro da adorada irmã. Deu um beijo na pontinha do nariz de cada filho, ajeitou as cobertas sobre Oswaldo, seu marido, e se foi. Quantos quilômetros existem entre Pirituba e Paris?

C.S.

