O que mais me incomodou foram os tons de bege no mármore da sala de jantar. Não que eu deteste mármores bege. Mas eles combinavam com o vaso de flores de madeira sem cor do hall. E com a camisa abotoada sem volume que ela vestia: marrom e bege. Era isso que me incomodou.
O menino não me olhava nos olhos. Vai ver que me confundiu com uma dessas meninas limpinhas e estranhas com quem está proibido de ter contato. E dava voltas ao redor do tapete branco sob a mesa de vidro, e se jogava atrás de um sofá bege e respirava com ar de fadiga como se me detestasse sem me conhecer, como se eu fosse a versão de esmalte vermelho da sua mãe, a quem detesta desde que nasceu, por ter ouvido repetidamente que aprendeu a falar só depois dos 2 anos e que era preciso correr contra o tempo.
Às 18 horas o interfone tocou. Rotina: aula de goleiro sobre o colchonete. Esse menino, pensei, nunca ralou os joelhos.
Embaixo do prédio ouvia os barulhos das quedas macias do principezinho triste. E dois lindos garotinhos sujos procuravam tesouros na lixeira da esquina.
2 Comentários
05/08/2008 às 1:37 am
esqueceu:
“sua foto ilustra piá-de-prédio na Enciclopédia.”
07/08/2008 às 10:39 am
Prefiro uma criança de dentes quebrados, joelhos ralados, fratura exposta da tíbia. Uma criança que come terra, que sobe em árvore, que rouba amoras da vizinha. A vida infelizmente é cruel e não dá chance a quem vive numa redoma. Pobre garoto rico triste.