Amenidades

Tive uma noite um pouco difícil. Bem difícil na verdade. Sonhei com as possibilidades que parecem sempre perfeitas dentro do craniozinho ansioso perturbadinho. Acordei chorando. Não tem como ter um começo pior prum domingo.

E não parou de chover um só minuto. Daquela garoa fininha. Chuva quieta dura um tempão, minha mãe sempre diz.

Mas por dentro foi meio relâmpagos.

E agora, calma, tranquila e no mesmo mundo onde acordei posso ver que tudo está calmo. Lá fora está calmo. A casa está arejada. Vi dois fimes estranhos. Escrevi um pouco. E até comi um bom macarrão com tomate e manjericão. Na varanda.

O caos passa. Assim como a paz passa.

O importante é tentar achar o momento certo de mandar um foda-se pra tudo.

E ler um Manuel Bandeira:

Paisagem noturna

A sombra imensa, a noite infinita enche o vale . . .
E lá do fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
— Em noss’alma criminosa,
O pavor se insinua . . .
Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
Corta a amplidão que a amplidão continua . . .
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
— Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.

Pouco a pouco, porém, a muralha de treva
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça
Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleva
A sombria massa
Das serranias.

O plenilúnio via romper . . . Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas deliqüescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.

Enfim, cheia, serena, pura,
Como uma hóstia de luz erguida no horizonte,
Fazendo levantar a fronte
Dos poetas e das almas amorosas,
Dissipando o temor nas consciências medrosas
E frustrando a emboscada a espiar na noite escura,
— A Lua
Assoma à crista da montanha.
Em sua luz se banha
A solidão cheia de vozes que segredam . . .

Em voluptuoso espreguiçar de forma nua
As névoas enveredam
No vale. São como alvas, longas charpas
Suspensas no ar ao longe das escarpas.
Lembram os rebanhos de carneiros
Quando,
Fugindo ao sol a pino,
Buscam oitões, adros hospitaleiros
E lá quedam tranqüilos ruminando . . .
Assim a névoa azul paira sonhando . . .
As estrelas sorriem de escutar
As baladas atrozes
Dos sapos.

E o luar úmido . . . fino . . .
Amávico . . . tutelar . . .
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes . . .

Teresópolis, 1912

2 Comentários

Arquivado em cotidiano, ficção, modernidade

2 respostas para Amenidades

  1. André

    outro dia, há muito tempo, escrevi num caderno de escola: “domingo é dia de anti-vida”. eu estava querendo dizer outra coisa, claro. tinha catorze ou quinze anos. estava sempre querendo dizer outra coisa.

    mas o lance é isso de, por dentro, ter só relâmpagos enquanto o mundo segue (sem rumo) com sua impassibilidade violentíssima, violadora.

    nunca encontrei esse momento certo sobre o qual você fala. talvez ele nem exista. talvez a gente é que deva decidir quando é o momento, arbitrariamente, e soltar o “foda-se tudo”.

    não sei. já fiz isso. não é muito diferente de não ter feito, eu acho.

    mas, droga, nem é isso que eu queria dizer. estou sempre querendo dizer outra coisa.

    então, deixa eu dizer: esteja bem.

    beijos
    André.

    • Van Rodrigues

      É. Acho que tem razão quanto ao momento certo. É só uma questão de perspectiva, acho… Ou focamos no de-dentro ou percebemos a casa arejada apesar de tudo.

      E não olhar não quer dizer que não exista.

      Mas, enfim, obrigada, estou bem agora… E já acabou o domingo.

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