réquiem

Tiepolo, Il tempo scopre la verità.
Por favor, um minuto de silêncio pela morte da arte.
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A arte morreu. É. Foi o Geraldo quem falou. A arte deve ser uma múmia que renasce e morre de tempos em tempos. Hegel, o bom velhinho, já dizia isso. E olhe que o cara é um dos mais importantes pensadores da Estética. O mal-humorado Adorno também, nada de poesia depois de Auschwitz. Sei.
A arte morreu. Assim, de repente. As melhores coisas são a do passado, os melhores discos, os melhores filmes, os melhores textos. Ninguém vai superar o machista James Joyce. Nada de teatro depois do Brecht. Poesia? Acabou com o Homero, aquele gênio. Tá, talvez Fernando Pessoa e sua esquisita esquizofrenia mereçam um pouco de respeito. Mas não tenha dúvidas: a arte morreu. Prova disso é Dom Berlusconi que cobriu as tetas setecentistas de Tiepolo de sua cantina mafiosa, como os velhos sacerdotes destruíam os grotescos de seus monastérios.
Digo mais. Mataram a arte. Não foi uma morte natural, como a da Dercy. A imprensa, elogiando cada coisa. Subjetividade. Deve haver um culpado. Procura-se vivo ou morto o assassino da arte.
A culpa deve ser da televisão. Matou a arte.
Ou dos comunistas, aqueles porcos.
Dos jornalistas, coitados, obrigados a fazer “críticas” daquilo que nem sabem para preencher os espaços.
Dos blogs. É, a culpa é de caras como o senhor WordPress que faz com que a gente não escreva mais, só diga besteiras polêmicas para receber mais visitas.
Ou dos chineses. Com certeza, a culpa é dos chineses.
Talvez do Dalai Lama.
A culpa é daquele anarquista do Duchamp. Só pode ser dele. Mercenário.
“Duchamp, Freud e alguns outros são os culpados pelos nossos fracassos.” Não fui eu quem falei. Foi Geraldo. E na Folha de São Paulo. Só pode ser verdade. Disse com todas as letras:
“A Arte está MORTA, sim (moribunda, pelo menos). E faz anos que fazemos teatrinho de representação infantil em torno de seu funeral para não perdermos emprego. Não passamos é de canastrões de última categoria, com a azeitona na ponta do esôfago, segura ali por algum Nexium, Plexium, Sexium ou antiácido. Afinal, antigamente as pessoas tomavam ácido. Hoje, só tomam antiácido.”
Vou ali queimar meus livros e meu bloquinho de anotações.
mármore ou sobre uma experiência de aula particular
O que mais me incomodou foram os tons de bege no mármore da sala de jantar. Não que eu deteste mármores bege. Mas eles combinavam com o vaso de flores de madeira sem cor do hall. E com a camisa abotoada sem volume que ela vestia: marrom e bege. Era isso que me incomodou.
O menino não me olhava nos olhos. Vai ver que me confundiu com uma dessas meninas limpinhas e estranhas com quem está proibido de ter contato. E dava voltas ao redor do tapete branco sob a mesa de vidro, e se jogava atrás de um sofá bege e respirava com ar de fadiga como se me detestasse sem me conhecer, como se eu fosse a versão de esmalte vermelho da sua mãe, a quem detesta desde que nasceu, por ter ouvido repetidamente que aprendeu a falar só depois dos 2 anos e que era preciso correr contra o tempo.
Às 18 horas o interfone tocou. Rotina: aula de goleiro sobre o colchonete. Esse menino, pensei, nunca ralou os joelhos.
Embaixo do prédio ouvia os barulhos das quedas macias do principezinho triste. E dois lindos garotinhos sujos procuravam tesouros na lixeira da esquina.
a vida

“A incompetência se manifesta no uso de palavras demasiadas”
Ezra Pound, ABC da Literatura
versão 17 - I wanna be… Scarlett Johansson
Para ser a Scarlett Johansson você precisa de:
1 . uma beleza quase exótica (loira como a Kate Moss, lábios volumosos como a Jolie, porém nem tão alta, nem tão magra, quase normal mas ainda Holywood)

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2 . amigos do underground americano para te convidar a fazer filmes de roteiros descolês, preferencialmente adaptações. melhor se de uma graphic novel. melhor se de uma g. n. underground. os amigos podem ser britânicos também.

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3 . filmes esses que devem ser apreciados por pessoas ainda mais cool e com muito, mas muito mais grana, como a Sofia Coppola, para que ela te eleja como protagonista de um filme rodado em Tóquio.

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4 . e virar a musa de um dos diretores (quase) unânimes entre os cinéfilos, Woody Allen, e fazer ainda mais filmes que serão organizados na prateleira “diretores” na Vídeo 1.

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5. pronto! agora pode até beijar o Justin Timberlake na boca em um clipe cretino…
6. por que o David Bowie já confirmou que vai cantar no seu CD de cover que não pode ser da Edith Piaf ou do Frank Sinatra, quem sabe de algum esquisitão. Tom Waits?
abstração # 1
Acredito em sonhos. Acredito nas histórias bizarras que a gente monta. Acredito nos guias de sonhos. E nas teorias de Jung. Acredito na arte surrealista e em dormir demais porque acredito nos sonhos. É isso.

Noite passada sonhei que eu cuspia pedaços de carne crua de passarinho, bico, uma ponta de asa, carne branca do peito, menos as vísceras. E quanto mais eu cuspia mais saía carne branca da parte de dentro de minhas bochechas, mas não faziam parte de minha boca essas carnes, era a carne de um cadáver passarinho, cuspi seus olhos, enquanto eu andava por uma tarde nublada numa praça que lembrava uma praça conhecida perto de uma catedral e na minha frente uma moça desconhecida cuja fisionomia me aparece ainda nítida fumava um cigarro com filtro vermelho sem filtro (complexo) e uma senhora negra e banguela e muito magra reclamava do cheiro da fumaça como quem resmunga sozinha, o semblante pesado, os olhos apertados por causa da claridade branca da tarde clara e cinza claro.
E sei o que tudo isso significa.
Nos dias em que além do sonho eu acredito no horóscopo solar, eu quero entender que minha covardia em falar o que precisa ser dito para algumas pessoas em situações drásticas é apenas uma diplomacia libriana. E deixo as pessoas me machucarem, sem dizer nada. E à noite cuspo passarinhos.
save our soul
Fiz uma fita pra galera da Mojo Books. Entrem lá no blog e comentem : )
versão 16 - Nina Becker style
Porque tem dias que acordar é uma desgraça. Mas esses dias acabam, e depois tem o outro com mais sol, sem chuva, o tempo seco, as violetas murchas, mas e daí, tem o sol, o dia claro e é inverno, perfeito.
E nesses dias eu quero ser outra pessoa.
Nina Becker por exemplo. Era diretora de arte em uma agência do Rio, mas cansou dessa coisa de ganhar dinheiro, saiu da empresa, voltou para casa da mãe, onde tinha uma máquina de costura. Por que não começar a costurar, não é? Resultado: a coleção mais feminina e elogiada do Fashion Rio daquele ano não-datado. Deu certo, mas dai o trabalho era muito e ela queria a boemia zona sul, banquinho, violão, o morro bonito com suas luzinhas lá longe, beeeeeeeeeem longe. Há 4 anos canta no Orquestra Imperial.
Hoje quero ser Nina Becker. Designer, estilista, bem-relacionada, sambista.

(foto sorrateiramente surrupiada de caroline bittencourt)
Em tempo: a inveja me deu um samba. Taí uns versinhos dele:
Fiz esse samba pra você me diluir
Me dar a lua trepidada em alto mar
E me perfuma, me abraça e me acata
Me destaca da calçada
Me lava com ondas do mar
welcome back
Mark W. Smith, How to disappear completely, acrylic, 20×24
chega de saudade - especial bossa cincoentona
Faxina na caixinha de grampos e nas pastas de luz da Matilda. Achei um coisa que nem sabia. Dividir-lo-ei, pois.
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Descendente de Vênus, uma lua latejante inspirava a seresta de Bianca. Felipe ali, sem sair de perto da porta. Ela anda estranha, ela não fala mais comigo, ela guarda a chave da gavetinha do banheiro dentro do cofre, a Teresa. Ela anda estranha, sente sono.
Ela anda cansada, exausta, tire as minhocas dessa cabeça, ô, Felipe. Ela anda estranha, e cantarola a seresta de Bianca. É pra Bianca, não é?
Mártir. Bianca é filha de Ares, ela e seu maiô de petipoá e renda, anda pela praia como se levitasse sobre seus chinelos brancos, furacão engavetando muitos mil metros de guerra. O diabo essa menina. Encantou João, aquele trovador bêbado de rimas escocesas e ritmo de cana. Serestas todas as sextas, antes do sarau da casa do Gomes. Seresta pra Bianca que brinca embaixo de seu penhoar de seda puríssima, puríssima Bianca, virgem e tão resplandecente, mas filha de Marte, aquela cachorra, não aceita os versos sinceros de minha boca rota, se faz de santa aquele veneno de corpo, aquela cor de brasa na pele, posso sentir aquela febre adolescente embaixo do lençol, ai, Bianca, Bianca, ouça a canção que fiz pra tu, cantando baixinho, sussurro essa nova bossa da juventude de nosso tempo, Bianca.
É uma casa de família. Teresa, indignada. Conto? Depois. Pela fresta da porta vê Bianca e Felipe se beijando com fome. Conto. Dia de seresta, Teresa pega a chave no cofre. O poeta olhando a gavetinha do banheiro.
Dois tiros atravessando o samba na varanda.
Não quero mais esse negócio de você longe de mim – lápide dos cunhados.
Versão 15 - black parisienne

Achei que ia comentar o meu lado groove black que sacolejava vinte cinco vinte sete avos de minha pessoa naquele lugar onde eu calçaca (vestia?) meu par de meia-calças laranja ao som do funk (eu sou do funk) embaixo do quinteto de metais foooooda e um negão estiloso mezzo Toni Garrido mezzo Carlinhos Brown soltando um free style e eu e meu amor e meu amigo mano que freqüentava o syndicate skate bar aguentando as patricinhas que tomavam seu smirnoff ice com guardanapo de papel e brincos detestáveis e decotes indecorosos e seus namorados barra pegas fortinhos que estavam ali porque apenas estavam ali, mas mesmo assim ainda estavam mais ali do que a namoradinha do amigo do namoradinho meu que estava entediadamente sendo entendiante com seu cigarro cenográfico e suas meias fio 80 e sua cara blasè mas acho que vou falar que sou mesmo de Paris, como a Alice, do Em Paris, e fotografo sem ser fotógrafa e escrevo sem ser jornalista tomo chá de laranja e canela no bule do café perfumado ali de perto sem ser a Alice do lado de lá.




